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17/08/2009

A arte de enterrar dinheiro.

Brasil perde US$ 10 bilhões a cada ano por não reaproveitar o lixo que produz. É como se fosse jogada fora toda a verba do Bolsa Família.

Diz o bom senso que rasgar dinheiro é sintoma de insanidade. O brasileiro não rasga, mas enterra. “É uma loucura real”, diz o economista Sabetai Calderoni. Dou­tor em Ciências Econômicas e di­­retor-presidente do Instituto Brasil Ambi­ente, ele fez um estudo revelador: calculou a água e a energia gastas para transformar a matéria-prima virgem e comparou com os gastos para se chegar ao mesmo produto final se fosse utilizado material reciclado. Incluiu na conta os custos de transporte dos resíduos e as despesas com aterro sanitário. O resultado: o Brasil perde US$ 10 bilhões todos os anos por não recuperar todo o seu lixo.

Pelas contas de Calderoni, a cada ano joga-se literalmente no lixo uma quantia igual à do Bolsa Família, programa que socorre 50 milhões de pobres no país. O cálculo, analisado no livro Os bilhões perdidos no lixo, parte de bases concretas. A prefeitura de uma cidade de 200 mil habitantes, por exemplo, gasta em média R$ 8 milhões por ano com transporte de dejetos. Se reciclasse todos os resíduos sólidos, além de economizar os R$ 8 milhões ainda ganharia R$15 milhões com a reciclagem, inclusive dos restos orgânicos. Ou seja, gastam-se 8 para enterrar 15. No final, o ganho real seria de R$ 23 milhões.

Para Calderoni, a destinação do lixo já não é só um problema ambiental, mas também econômico, pois é necessário ir cada vez mais longe para descartar os resíduos, o que encarece a operação. Em São Paulo, o transporte representa dois terços dos gastos. “É como se gastasse uma fortuna para enterrar ouro”, diz. O lixo é matéria-prima, e tem de ser visto como tal. Para ele, estamos muito próximos da encruzilhada final. “Não há saída. Os aterros ficarão cada vez mais caros, a ponto de se tornarem inviáveis para qualquer prefeitura”, vaticina. O caminho? Usinas de reciclagem para reaproveitar tudo, de entulhos a orgânicos.

Com trabalhos na área de resíduos e meio ambiente reconhecidos internacionalmente, por meio de pesquisas ou como consultor da Organização das Nações Unidas, Calderoni diz que a solução é tão simples quanto evidente: estações de reciclagem integral do lixo, com várias soluções no mesmo espaço. “E um centro de reciclagem ainda tem a vantagem de ocupar uma área sete mil vezes menor que a de um aterro sanitário”, compara. Em uma cidade do porte de Curi­tiba, por exemplo, diz que poderia haver uma central de reciclagem em cada ponto cardeal, reduzindo o custo do transporte.

Segundo Calderoni, não custaria mais do que R$ 10 milhões uma usina para reaproveitar todo tipo de resíduo, do lixo domiciliar ao entulho de construção, do caco de vidro à poda de árvores. “O melhor de tudo é que pode sair a custo zero para o município, bastando para isso uma parceria público-privada”, conclui. Matéria-prima não falta. Metade das 140 mil toneladas de restos gerados todos os dias no país ainda acaba nos lixões. O Brasil tem 1,5 mil desses lugares, a forma mais rudimentar no armazenamento de detritos, onde o lixo é jogado sem cuidado e sem tratamento.

Pelos dados do Diag­nóstico do Manejo de Resí­duos Sólidos Urbanos 2006, com informações de 247 municípios onde se concentra 50% da população brasileira, 61% do lixo coletado nessas cidades vai para aterros sanitários. Os aterros controlados, com uma estrutura melhor do que os lixões, mas onde há o trabalho de catadores, recebem 25% do lixo. Já o lixões ficam com 13,6% do material coletado, nos municípios que repassaram informações para o diagnóstico. Contudo, a amostra analisada representa grandes centros urbanos, enquanto a maioria dos lixões ainda está nas cidades pequenas e médias.

Em média, 55% do descarte em peso é de resíduos orgânicos, o que influi diretamente na disposição final em aterros, pois dificulta o gerenciamento, especialmente o tratamento do chorume e de gases oriundos da decomposição da matéria orgânica, que contribuem de forma significativa para o efeito estufa caso não sejam drenados. Apenas 14% dos brasileiros são atendidos com coleta seletiva, em 7% dos municípios, 83% deles no Sul e Sudeste. Já foi pior.

Há 15 anos, só 81 cidades fa­­ziam o serviço em escala significativa, chegando a 405 no ano passado. Em números absolutos, os brasileiros atendidos passaram de 25 milhões para 26 milhões entre 2006 e 2008, segundo pesquisa bianual da organização Compro­mis­­so Empresarial para Reci­cla­gem (Cempre), principal fonte do país sobre coleta seletiva. Em Belo Horizonte e Porto Alegre, 100% da população contam com o serviço, seguidas de perto por Curitiba, Itabira (MG), Santos (SP) e Santo André (SP).

O setor de reciclagem movimenta no país R$ 8 bilhões por ano, podendo crescer em curto espaço de tempo se alguns gargalos forem eliminados. Dentre eles, o Cempre destaca a capacitação técnica, uma política fiscal/tributária coerente e o incremento da participação popular. Nesta fase, o que era lixo é transformado em matéria-prima, em novo insumo para a indústria, sendo reintroduzida no ciclo produtivo. No Brasil, a reciclagem de lixo urbano gira em torno de 12%. Alguns tipos de materiais apresentam índices equivalentes aos mais elevados do mundo, como as latinhas de alumínio, papelão e plásticos tipo pet.

Papelão e alumínio apresentam os mais elevados índices de reciclagem do país, de 77% e 94% respectivamente. Para os metais ferrosos, incluídas as embalagens, o país possui uma rede consolidada de sucateiros que alimentam algumas siderúrgicas, que em alguns casos chegam a operar com mais de 85% de matéria-prima oriunda do comércio de sucatas. O vidro, apesar de algumas restrições quanto ao transporte, também é reciclado em algumas partes do país. A fração mais significativa do que é coletado volta para as grandes vidrarias.

Embalagens longa-vida têm apresentado uma boa evolução no índice de reciclagem, impulsionada pelo reaproveitamento das fibras de celulose, de alta qualidade, por parte das indústrias de papel e papelão. A recente tecnologia de plasma, desenvolvida no Brasil, permite o aproveitamento do alumínio e do plástico também presentes na em­­balagem. Essa tecnologia está sendo exportada para Ásia e Europa e colocou o Brasil como líder mundial de reciclagem de embalagens longa-vida (24% em 2006) entre países em desenvolvimento.


Fonte: Mauri König - Gazeta do Povo


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